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Quem trouxe Le Pen à 2ª volta?

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 30.04.17

 

 

Quem trouxe Le Pen à 2ª volta?

Quem financiou a sua campanha?

Quem criou as condições favoráveis à recepção e aceitação da sua mensagem repelente?

 

Financiamento: o foco de luz recai sobre a Rússia. Sem financiamento não teria sido possível montar aquela máquina de atrair revoltados saudosistas.

Condições favoráveis: os políticos convencionais e a própria UE.

Políticos convencionais: as ideologias políticas do séc. XX já não interpretam a realidade actual das vidas concretas. Serviram os interesses das elites políticas, financeiras e económicas e, enquanto houve recursos para distribuir por uma parte da população, aguentaram-se no poder intercalando no governo. Isto já não voltará a funcionar assim.

A UE: falhou em quase tudo no projecto europeu e agarra-se, teimosamente, à cultura financeira, à supremacia da finança sobre a economia. E é aqui que tenho de reconhecer a minha admiração pelo povo grego. Apesar de ter sido tratado pelas instituições europeias de forma inclassificável, escolheu permanecer na UE. E apesar das suas dificuldades económicas, ainda recebeu os refugiados nas suas ilhas e não consta que os queira expulsar. Os franceses que, comparativamente, só foram beliscados pela cultura financeira e pela austeridade, falam em sair da UE.

 

 

 

publicado às 09:44

Não, nem todos somos preconceituosos

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 26.03.17

 

 

Uma frase que me incomodou, a propósito dos comentários televisivos sobre o preconceito cultural de Dijsselbloem: Todos somos xenófobos e preconceituosos. Depois de uns mimos sobre os holandeses que não vou repetir.

A sério? Somos todos xenófobos e preconceituosos? Não, nem todos somos xenófobos e preconceituosos.

Dos holandeses nas praias do Alentejo, que prefiro ao Algarve, guardei os sorrisos, a descontracção, a amabilidade. A simplicidade de quem aprecia a vida. E nisso não se distinguem das pessoas comuns de qualquer país europeu. Ou de qualquer região do planeta.

 

O preconceito cultural surge-nos mais frequentemente nas elites e nas instituições. Não nas pessoas comuns. A não ser que lhes repitam, nos discursos oficiais e nos media, que a culpa da austeridade (neste caso específico) é destes e daqueles por isto ou por aquilo.

Dijsselbloem transmite a cultura de uma instituição europeia que, cinicamente, passou a informação errada sobre a austeridade às populações que diz representar.

Dijsselbloem representa, na verdade, os interesses financeiros. De uma Europa que tem a lata de proteger, no seu próprio coração, fugas de capital e evasão fiscal.

É essa a grande mentira e cinismo que Dijsselbloem representa, embrulhada no preconceito cultural e no bullying político: culpabilizar as populações (dos países intervencionados), humilhar as populações (Grécia), e mantê-las no double bind, a aceitar continuar a alimentar a máquina financeira.

 

É esta a descodificação cultural que temos a responsabilidade de promover nos media e nas redes sociais. As pessoas comuns, as que foram sujeitas a esta inconcebível praga cultural, têm direito a respirar de novo e a apreciar a vida.

E os responsáveis europeus terão de se adaptar e depressa, se não querem desmantelar o melhor que a Europa nos pode trazer a todos: paz, segurança, prosperidade. Que só é possível em democracia e colaboração.

Dijselbloem não tem lugar nessa nova cultura europeia, mas tem uma carreira promissora no grande banco onde a crise financeira começou.

 

 

 

publicado às 12:47

A descodificação cultural no Prova dos 9 (TVI24)

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 25.03.17

 

 

Gosto de acompanhar o Prova dos 9 sobretudo pelo debate entre Fernando Rosas e Paulo Rangel. Silva Pereira aqui funciona como o moderado.

Onde é que entra aqui a descodificação cultural? A descodificação cultural como a capacidade adquirida pela experiência (de quem está receptivo a ouvir os outros e a aprender com a interacção), de identificar a mensagem de base e desmontar a agenda de discursos, acontecimentos, decisões políticas, financeiras, etc.

Podemos ser levados a pensar, por exemplo, que o debate aceso entre Fernando Rosas e Paulo Rangel se deve a pertencerem a famílias políticas diferentes. Na perspectiva de Paulo Rangel, isso verifica-se, pois tem uma atitude reactiva às afirmações de Fernando Rosas, ligando de imediato as suas opiniões à "extrema esquerda". Mas a análise de Fernando Rosas é a do investigador que procura ser objectivo, imparcial, distanciar-se do objecto de estudo para melhor o compreender.

Relativamente a Dijsselbloem, Fernando Rosas descodificou a mensagem, revelou tratar-se de uma ideologia neo-liberal que promoveu a austeridade nos países intervencionados sobre quem continua a exercer pressão psicológica baseada em preconceitos culturais, e identificou esta perspectiva austeritária na direita e numa parte da social-democracia europeias.

Esta análise parece-nos uma evidência. Compreende-se o desconforto de Paulo Rangel e até mesmo de Silva Pereira.

A social-democracia esvaziou-se na austeridade. É por isso que está a ser penalizada nas eleições. Os partidos ou movimentos que vão captar a atenção dos eleitores serão os que apresentarem uma perspectiva mais pragmática e eficaz, e terão de ser credíveis. Basear-se-ão em equipas e não numa liderança personalizada. 

 

 

 

publicado às 13:04

O grande desafio de um governo de esquerda

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 24.10.15

Teremos tido alguma vez, desde o início da normalização democrática, um verdadeiro governo de esquerda?

Que representasse a vontade dos eleitores, contemplasse uma gestão política e económica responsável e conseguisse o equilíbrio entre finanças públicas, economia real, qualidade de vida das famílias e protecção dos mais frágeis?


Um governo de esquerda hoje tem um desafio ainda maior: conseguir tudo isto com o condicionamento das regras europeias.


Nota-se um desconforto na dupla PSD/CDS e nos responsáveis de Bruxelas. É que Portugal foi apresentado pela CE e o eurogrupo como o exemplo do sucesso da austeridade. Revelar agora o falhanço do programa é tudo o que as instituições europeias querem evitar a todo o custo.

É por isso que não sabemos qual a verdadeira situação financeira do estado. E é por isso que não sabemos qual a verdadeira situação do nosso sistema financeiro. 


A dupla PSD/CDS pode até voltar a ser governo. Um governo de gestão. 

De qualquer modo, como disse o filósofo José Gil no mais recente "Prós e Contras", a mudança já está em movimento. Este movimento pode ser abafado agora, mas não vai parar, pois é a esperança, o futuro.

 

 

 

 

Post publicado n' A Vida na Terra.

 

publicado às 18:13

E um belo dia ouvimos na televisão o impensável em adultos responsáveis: se ganharmos as eleições damos-vos um prémio... as empresas de rating estão à espera de ver quem ganha...


Conseguem imaginar o riso que terá acompanhado a elaboração deste folheto de propaganda a que chamaram programa?

País mais competitivo do mundo daqui a 4 anos?

Descer a dívida para 107% do PIB?

Basta ver estas duas promessas para se perceber o que pretendem fazer.


Mas analisemos a primeira: país competitivo.

Com o serviço da dívida? E com uma das energias mais caras da Europa? E com as fraudes financeiras? E com as falhas na supervisão bancária? E com os recursos públicos nas mãos de privados estrangeiros? E com grandes grupos a pagar impostos noutros países? E com a grande evasão fiscal? E com os paraísos fiscais no coração da Europa?

Estes são constrangimentos que impedem o país, logo à partida, de ser competitivo.


A não ser... que o valor trabalho desça ainda mais.

Será por isso que o nível do desemprego não pode descer muito mais, tal como nos está a querer mentalizar o FMI?

Mas isso não nos irão dizer. 


Não sendo esta propaganda minimamente credível, é evidente que não podem apresentar números, nem estudos, nem projecções.


Os portugueses aceitaram a austeridade porque assumiram a dívida que contraíram em seu nome, como sua. E porque acreditaram na lógica dos benefícios da austeridade e na ausência de alternativa.

Foi assim que a coligação se apresentou em Bruxelas, como o exemplo de sucesso. Exemplo que serviu às instituições europeias e ao FMI para atirar à cara dos gregos.

 

 

 

 

 

 

 

publicado às 22:57

Para entreter a classe média que paga impostos, o governo colocou ou vai colocar um simulador na sua conta fiscal. Assim, o contribuinte pode fazer as continhas a um possível alívio fiscal no ano que vem se o governo arrecadar mais receita fiscal do que o previsto. A esta probabilidade chamou o governo manhosamente crédito fiscal.


Mas o cinismo não se fica por aqui. O governo gaba-se de ter reduzido o desemprego saltando por cima do emprego destruído, do falso emprego, do subemprego, e da emigração.

E vai mesmo mais longe: não vai cortar nas pensões, a mesma promessa de 2011.

A pedra de toque foi a proposta de lei anti-corrupção, mais uma que foi chumbada pelo tribunal constitucional e que, segundo um jurista ouvido na Sic Notícias, consegue ser pior do que a proposta há uns anos pelos socialistas. De qualquer modo, o que importa é que os cidadãos fiquem com a ideia que a coligação se preocupa com a corrupção...


Se estivermos bem atentos, começamos a perceber que há omissões nos discursos de propaganda governamental. Já aqui referi uma: a composição da dívida.

Mas há mais: as privatizações; os negócios privados com recursos públicos; as falhas na supervisão bancária; as fraudes financeiras; a grande evasão fiscal...


Entretanto, a coligação governamental apresentou as listas das personagens que propõe para a assembleia da república, reforçando a ideia que a equipa fez um bom trabalho e merece continuar no poder.


As palavras-chave que iremos ouvir repetidas: confiança dos mercadosrecuperação económicaredução do desemprego; e, mais recentemente, prudência.


Também ouviremos, se quisermos: era uma vez um país que vivia acima das suas possibilidades. Era governado por um partido que nos levou à bancarrota e tivemos de ser salvos pela solidariedade europeia. Para ganhar a confiança dos mercados, tivemos de cortar nos salários, nas pensões, nos subsídios, na saúde e na educação, e subir os impostos. Agora já podemos começar a dar o que tirámos, mas às prestações.


Paradoxalmente, esta lógica dos benefícios da austeridade, do caminho certo, das continhas bem feitas, de pagar o que se deve, de não viver acima das nossas possibilidades, soa muito bem à cultura tradicional da classe média. A classe média que foi precisamente a que pagou a factura.

Hoje o que vemos? Uma pequena minoria cada vez mais rica e uma grande maioria cada vez mais pobre: as desigualdades sociais agravaram-se.

 

Não nos podemos admirar, pois, que haja uma enorme percentagem de indecisos a dois meses das eleições.

 

 

 

 

 

 

 

publicado às 22:48

"A dívida como ela é" (Repórter TVI)

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 26.07.15

Uma das caixas fechadas a sete chaves aqui abertas é a dívida, "a dívida como ela é".

Esta é uma magnífica reportagem de Victor Moura-Pinto, editada por uma equipa talentosa.


Esta reportagem é mais reveladora e eficaz do que os discursos moralistas da coligação governamental, apelando ao medo do futuro. E mesmo mais reveladora e eficaz do que os discursos críticos e indignados da oposição. 

Porque nos mostra a realidade quotidiana de muitas famílias apanhadas na lógica perversa da austeridade.

 

 

 

 

 

 

publicado às 12:38

Construir tudo de novo e pintar de fresco (A Vida na Terra, 2014.05.01)

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 27.07.14

Alguns pontos para reflexão:

- em que situação estamos hoje como país, comunidade, famílias, pessoas?

- a que se devem os actuais desequilíbrios a todos os níveis, económico, social, do acesso à justiça, à saúde, à educação, a um trabalho digno e valorizado?

- qual a cultura de base que permite tais desequilíbrios, fracturas, desvios na organização da nossa vida colectiva?

- como contrariar essa cultura de base, retomando os ideiais iniciais da democracia, do equilíbrio económico e social, da energia vital de uma comunidade?

 

O regime actual será incapaz de se reformar de dentro e já se adaptou e organizou (hoje diz-se blindou) para neutralizar qualquer mudança que o possa pôr em causa. O regime de hoje tem a enorme vantagem de estar apoiado numa Europa que também traiu os seus princípios fundadores democráticos e se rendeu a uma cultura de base totalitária, por sua vez apoiada na finança internacional e nos grandes grupos económicos trans-continentais. Dito assim, parece um discurso ideológico, uma doutrina, mas estou simplesmente a descrever o que consigo perceber e deduzir.

 

 

 

 

É por essa constatação, de que este regime está blindado, que terá de ser a sociedade civil a iniciar uma nova construção e uma pintura de frescoO seu desenho é muito simples: em rede, pessoas, famílias, comunidades. O apoio mútuo, económico, social, jurídico.

Uma intervenção a todos os níveis, utilizando a margem que ainda resta às pessoas comuns, aos cidadãos, de algum poder de influência, como consumidores e como eleitores sobretudo, porque a margem está a ser reduzida e contraída até à sua anulaçãoHá muitas formas de neutralizar e anular os poucos direitos de cidadania que ainda restam. Como disse, o regime está blindado em novas leis que se baseiam perversamente numa emergência nacional e que varrem as leis existentes, até as leis básicas que organizam um país, as da democracia.

 

Os jovens têm aqui o seu papel. Afinal, são os mais idealistas, os que têm mais energia, os que se movimentam melhor num mundo conectado ao segundo. Mas será um movimento inter-geracional: as comunidades serão mais criativas e eficazes se juntarem todas as idades, que aliam o entusiasmo juvenil ao bom senso e à experiência.

 

O sistema político actual chegou a um impasse: os partidos que se reclamam do "arco do poder" estão a perder apoiantes, perderam a credibilidade popular de tal forma que mais uns anos e ficarão irrelevantes. O regime que neles se tem apoiado, prevendo isso, insiste noutra blindagem, o tal consenso.

A esquerda revela mais vitalidade, estando a surgir novos movimentos e partidos. E mais são necessários, não baseados em ideologias doutrinárias obsoletas, mas em princípios e valores fundamentais. Sim, novos movimentos e partidos, construir tudo de novo e pintar de fresco.

 

 

 

 

 

 

publicado às 23:28

 

Já o anterior governo adorava gráficos em powerpoint. Seguiu-se-lhe Vitor Gaspar e a lógica dos números. E actualmente somos bombardeados na televisão com uma chuva de números para provar a recuperação económica e justificar a austeridade.


Pordata e o site Conhecer a crise, de uma fundação de uma das fortunas nacionais que têm escapado aos impostos, disponibilizam informação elaborada numa base científica sobre a nossa situação actual. À primeira vista podemos supor tratar-se de informação objectiva e imparcial mas, como irei tentar analisar, a forma como é apresentada condiciona a nossa perspectiva sobre a austeridade.

 

Vamos então procurar perceber como esta informação científica e de utilidade cívica portanto, procura atingir os mesmos objectivos das estratégias políticas aqui referidas:

 

Abrindo o site da Pordata, na parte relativa ao país, onde antes víamos a correr o cronómetro da despesa pública em geral, vemos agora dois cronómetros, um das despesa pública com a educação e outro, da saúde. Dá vontade de dizer que faltam os cronómetros do juro da dívida, das PPPs, dos swaps, do buraco do BPN, da grande evasão fiscal, dos perdões fiscais e das prescrições em tribunais, das fundações, dos ajustes directos, da administração central, das câmaras municipais, do parlamento, etc. etc. Portanto, não é indiferente a selecção dos cronómetros a correr nesta primeira página. 

Outro pormenor, se formos espreitar a "população empregada" vemos que se mete no mesmo saco "a tempo completo e parcial".


Outro exemplo é a informação relativa aos contratos de trabalho no site Conhecer a crise: o queijo mostra-nos que 17,6% se refere a "outras situações" mas sem especificar se se trata da tal "população empregada a tempo parcial" ou qualquer espécie de trabalho precário, subemprego, estágios sem remuneração ou formação profissional. 

Nos dados relativos a "empresas por volume de negócio" os dados são provisórios e referem-se a 2012. Pergunto-me: de que nos servem estes dados sem estarem actualizados até ao 4º trimestre de 2013? Já tinha reparado neste pormenor relativamente ao dado "empresas sobreviventes" cuja percentagem, 86,6%, impressiona, mas que também se refere a 2012. 

Quanto ao "défice público" depara-se com este nº saído do nada: 3,6%. Na verdade, este dado é fornecido pelo Banco de Portugal, uma instituição que não supervisionou decentemente e até viu promovido o seu governador ao BCE, que depende directamente do BCE e que por isso é uma excepção aos cortes e que, mais recentemente, deixou prescrever o caso de um banqueiro.

O que aqui quero alertar é apenas o seguinte: estejam atentos aos dados que vos vão oferecendo, pois a sua apresentação não é inocente e as suas fontes nem sempre nos inspiram confiança. 

Mas na verdade, bastava-nos este nº relativo ao nº de pessoas apoiadas pelo Banco Alimentar para estar tudo dito sobre a "crise" e a natureza da austeridade.


Mais importante do que dados estatísticos e gráficos, é analisar, interpretar e contextualizar. Por trás desses números estão pessoas e vidas concretas.

Também aqui me refiro, a partir de uma série televisiva, a uma leitura de dados aparentemente desligados, mas que vão compondo o puzzle complexo de comunidades, países, regiões.

 

 

 

 

 

publicado às 18:02

 

Pode parecer paradoxal, a informação funcionar como uma estratégia política de condicionamento mental e comportamental. Afinal, a informação é, em princípio, uma base necessária para poder gerir as nossas vidas.

Pois bem, há a informação útil e que nos ajuda a tomar as melhores decisões para as nossas vidas, e a informação programada para nos condicionar a tomar as decisões prejudiciais para as nossas vidas sem disso nos apercebermos.


Alguns exemplos:

1. O PM verbaliza no parlamento que nunca mais voltaremos ao nível dos salários e pensões de 2011.

2. O Presidente escreve um prefácio prevendo que até 2035 iremos estar debaixo de uma monitorização que subentende a continuidade da austeridade.

3. Uma das fortunas que escapou à austeridade responde a um jornalista que os portugueses não podem querer ganhar um salário equivalente aos alemães porque produzem muito menos.


Vamos tentar desmontar as estratégias políticas utilizadas:


No primeiro exemplo, a frase do PM tem duas intenções claras: previsão do futuro a longo-prazo e mentalização dos cidadãos para próximos cortes. 

Para já, ninguém pode fazer previsões a longo-prazo, muito menos um governo que está a prazo. Segundo, o governo já não tem qualquer legitimidade para proceder a cortes em salários e pensões, uma vez que os já efectuados foram-no de forma abusiva e baseados em falsos pretextos. Terá de cortar noutro lado, não no trabalho e nas pensões relativas aos descontos efectuados. Mas a frase é mais perversa do que parece à primeira vista, pois tem uma mensagem subliminar que pretende implantar nas pessoas: adaptem-se à nova normalidade, à pobreza, à mediocridade, à vida esforçada sem futuro.


Também podemos encontrar esta mensagem subliminar no segundo exemplo, o prefácio do Presidente que aponta à nossa frente décadas de austeridade até pagar a dívida. 

Na verdade, esta frase também peca pela mesma arrogância: quem pode fazer previsões a longo-prazo, para mais um Presidente que cooperou estrategicamente com o anterior governo e apadrinhou o actual governo-troika? Também sintomática a saída do livro nesta fase crítica da nossa vida colectiva, em que se começam a sentir os sinais do desespero de quem atingiu o limite. Este é o país em que se verificou uma perseguição aos mais frágeis da sociedade, em que se acentuaram as desigualdades sociais - austeridade para pobres, prosperidade para ricos -, em que não se tocou na banca e nos grandes grupos económicos, em que se perdoaram evasões fiscais, em que não se fizeram as reformas certas, etc.


O terceiro exemplo, a opinião de uma das fortunas nacionais que tem lucrado com a cultura dos salários baixos, serve de indicador de mentalidades e revela uma cultura empresarial obsoleta, portanto, igualmente a prazo. 

Como aqui poderão consultar, na pág. 17: "... a impossibilidade de uma política de ganhos de competitividade através da redução dos salários nominais e dos impostos que incidem sobre o trabalho pagos pelas empresas. Aliás, é esse facto que motiva 1) que os dirigentes das confederações patronais tenham, desde sempre, chamado a atenção para a necessidade, sim, da redução dos custos de financiamento, de energia e de comunicações, mais do que os custos com salários, embora tenham aceite as políticas de redução salarial; 2) que o próprio Memorando de Entendimento tenha fixado a necessidade de uma redução daquilo que lá se denomina de “Rendas Excessivas” dos serviços prestados às empresas ou, de outra forma, dos “Custos de Contexto”, embora nada tenha sido conseguido desde 2011, apesar de estar no programa eleitoral do PSD e no Memorando de

Entendimento. Para tanto, os lucros da EDP (recentemente privatizada), da Portugal Telecom e outras operadoras, da banca, e de todas as entidades que prestam serviços às empresas teriam de ser reduzidos substancialmente, de modo a diminuir o seu peso no total da produção das empresas. 

Ora, por outro lado, e segundo as mesmas estatísticas, o custo das mercadorias vendidas e dos materiais consumidos correspondeu a cerca de 185 mil milhões de euros, enquanto o custo total do fornecimento de serviços externos se situou nos 85 mil milhões de euros, um valor bastante superior aos gastos com pessoal. Quando se analisa as diferentes atividades, repara-se que os serviços consumidos são sempre superiores aos gastos com pessoal. Se no total representam 1,75 vezes os gastos com pessoal, na indústria transformadora representam 1,25 vezes, no comércio 1,55 vezes, na construção 2,65 vezes mais e nos transportes 3 vezes mais."

 

Muitas são as estratégias políticas de condicionamento mental e comportamental, isto é, da nossa perspectiva da realidade e das decisões e iniciativas que podemos adoptar nas vossas vidas.

Não apenas as actuais lideranças políticas nos querem mentalizar a aceitar a austeridade como benéfica para o país, o que justificaria os cortes brutais que impuseram, como nos querem mentalizar a continuar a aceitá-los como necessários. A mensagem subliminar é esta: à vossa frente estão anos, décadas, de uma nova normalidade, uma vida sem perspectivas, uma vida sem futuro. A austeridade é apresentada como um destino, uma fatalidade, que se abateu sobre a maior parte da população portuguesa.

Uma tal mensagem não tem qualquer viabilidade porque esse cenário não é possível numa sociedade democrática. Uma tal mensagem só pode fazer sentido em sociedades rígidas e autocráticas.

 

 



publicado às 17:42


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